Moita: 75 anos da Daniel do Nascimento com “Virgen de Macarena” em punk rock

Moita: 75 anos da Daniel do Nascimento com “Virgen de Macarena” em punk rock, onde não faltou cinematografia, paixão, rebeldia de herói e energia (isso mesmo) punk rock, à flor da pele.

Texto: André Nunes e Rui Lavrador
Fotografias: Carlos Pedroso

Galeria Fotográfica: AQUI.

O templo com 75 anos de História, coragem e tradição taurina

A Praça de Toiros Daniel do Nascimento é muito mais do que um espaço físico — é um templo da tauromaquia, um lugar onde o tempo se faz de memória, de coragem e de tradição. E fez no dia 16 de julho, 75 anos após o seu içar. 

E ontem, a 18 de julho de 2025, estivemos a festejar exatamente tudo o que esta praça já viu nos seus setenta e cinco anos de espaço cultural: desde a elegância do toureio a cavalo até à pureza das verónicas em terra, passando pela marca portuguesa que são os forcados. São setenta e cinco de história, de sonhos, de conquistas, de reconquistas, de superações, de temores e dificuldades. São coisas que a tauromaquia nos ensina, são coisas que a Praça de Daniel do Nascimento nos ensinou. E tem sabido guardar e transmitir, com a dignidade dos grandes lugares.

No dia de ontem, as comemorações acabaram por ter um carácter mais punk rock. Leia aqui porquê!

Entre touros, música e afición: A alma da corrida na Moita

Nesta corrida comemorativa, o cartel honrou essa mesma história. Tourearam Luís Rouxinol, Gilberto Filipe (em substituição de Marcos Bastinhas), o matador Antonio Ferrera, e o matador da terra, Joaquim Ribeiro “Cuqui”. Para as pegas, esteve em praça o Grupo de Forcados Amadores da Moita do Ribatejo. Lidaram-se, a cavalo, touros de Canas Vigouroux, sendo lidados a pé, touros de Mata-o-Demo.

Antes da corrida, viveu-se um ambiente taurino tão próprio da Moita — onde se conversa, se comenta e se vive a festa. O serviço de comes e bebes do Clube Taurino da Moita ajudava à festa, entre conhecidos e recém conhecidos unidos pela afición. O tema da conversa era claro: a corrida que estávamos prestes a presenciar. Destaque também para o concerto pré-corrida com o Grupo Corazon Latino, que entre flamenco e cante alentejano, animou o redor da praça.

Luís Rouxinol: clássico e experiente

Luís Rouxinol enfrentou um touro com as suas complicações e a fase da cravagem comprida resultou irregular. O touro nem sempre foi certo na investida, mas Rouxinol respondeu com o seu estilo. A partir dos curtos, apostou numa brega com ladeios, puxando por um público ainda algo adormecido. A reação foi imediata — o público percebeu a importância da praça e do cavaleiro.

Aliás, fruto da sua experiência, conhecimento e do permanente contacto com o público, o cavaleiro elevou a fasquia na ferragem curta, onde se destacam os ladeios, o toureio em curto e a cravagem de um curto de boa nota, quase bélico. Terminou com um ferro de palmo, de qualidade. Actuação positiva.

O Toureio Versátil de Gilberto Filipe

Gilberto Filipe não só aproveitou a oportunidade, como demonstrou qualidade em toda a lide.

Enfrentou um toiro que aparentava bravura, mas que rapidamente revelou querença para junto do pátio de quadrilhas.

Os seus cavalos são uma maravilha à vista, bem postos, arranjados, com elegância a rodos. Tecnicamente, Gilberto fez tudo bem feito, desde a cravagem comprida até aos curtos, defendendo-se na escolha dos terrenos mais confortáveis para o seu estilo, desenhando bem as sortes, cravando a preceito e rematando com efusividade.

Foi lendo melhor o oponente à medida que o toureava e insistiu num toureio de frente, tentando contrariar o vício do toiro de colar-se às tábuas. 

Na parte final da lide, surpreendeu com um violino de grande efeito, natural e sem esforço. Ainda retirou a cabeçada para colocar mais um violino, com engenho. Em resumo, terminou com dois ferros em sorte de violino e com a montada sem cabeçada, sempre do agrado do público.

Com apontamentos de equitação e dressage, foi criando empatia com o público, sendo um cavaleiro que deu a volta com o carinho dos moitenses.

Entre entrega e rebelião: Ferrera entra em cena

Na parte apeada, Ferrera entregou tudo de si ao público da Moita. O toureiro espanhol que já passou por várias fases da sua concepção toureira, actualmente (nos últimos anos) encontra-se numa mescla de poder, exuberância e – amiúde – com algo mais profundo e estético. 

Na Moita, estética nem sempre a concebeu, mas domínio, desplantes e entrega teve. Bandarilhou em ambos os touros – a pedido do público. O primeiro recebeu-o com uma larga afarolada de joelhos em terra, prosseguindo depois com raça, destacando-se séries por ambos os pitóns, com a muleta. Arrancou a atenção do público das conversas e dos copos e o seu capote parecia fazer sombra à lua. A luz da Moita vinha do seu capote verde brilhante. As bandarilhas ficaram a seu cargo. Pegou na muleta e, de joelhos, executou muletazos com segurança. Lidou com inteligência o exemplar de Mata-o-Demo. Intercalou com naturales, um deles, mirando ‘al tendido’. 

Ferrera não foi um toureiro de estética refinada, mas sim de missão cumprida. Submeteu o toiro à sua vontade, contagiando o público com a sua personalidade vibrante e divertida. Em ambas as faenas, apostou num estilo de “super-heróis”, em que capote e muleta foram usadas como se fossem uma coreografia inspirada em algum filme do género, que provavelmente viu na véspera. Ao brincar com esta metáfora, os seus utensílios de trabalho esvoaçavam a cada passe, e a praça oscilava entre o riso e o espanto.

“Torito, torito; mira, mira!”, gritava ele a desfrutar da noite. 

Pára a música, volta a música

O segundo touro do seu lote lesionou-se após partir um pitón, ao embater contra um burladero. Assim, correu-se turno de lide e coube a Ferrera encerrar as actuações com um sobrero de Mata-o-Demo, ao qual Ferrera deu a volta, com muitos desplantes, tendo ainda sofrido uma voltareta em bandarilhas, sem gravidade maior, partindo depois para uma actuação em que até à banda mandou parar o pasodoble por preferir outro, o de “Virgen de Macarena”. Um momento algo insólito, mas com capacidade de criar emoções no público, nem que fossem gargalhadas. A banda parou por momentos, mas voltou com o mesmo pasodoble. Contudo, parece que a Virgem abençoou o final da sua segunda faena. Um momento em que falamos de pasodobles, mas com pedidos muito ao estilo rebelde do punk rock. E com um final que em tudo foi punk rock. 

Foi, realmente, um gesto provocador e teatral, entre a devoção e o espetáculo, que transformou a praça numa mistura de arena e palco — como se tivesse trazido um vinil dos Sex Pistols ou Iggy Pop para o coração da tradição. Não foi o herói clássico, mas antes um super-homem moderno, punk, com capa invisível e força emocional à flor da pele.

Enquanto isso, Ferrera foi conquistando o público com carisma e destaca-se o final de faena com uma série de naturales.

Com este segundo toiro, Ferrera entregou-se ao espetáculo: irreverente, quase personagem de um filme de supers. Aqui foi puro espetáculo: um “Superman” versão James Gunn — intenso, imperfeito, emocionalmente punk, com força e vulnerabilidade à flor da pele. Aliás, deve ter visto recentemente. 

Joaquim Ribeiro “Cuqui”: o herdeiro da memória

Joaquim Ribeiro ‘Cuqui’ deu mostras da sua qualidade e da sua concepção artística, mais técnica e fria, porém valorosa. O primeiro touro recebeu-o à porta dos curros, porém cedo o touro mostrou muitas dificuldades, levantando a cara em demasia e o toureiro fez o que pôde, sem ter grandes possibilidades de sucesso, embora não por culpa sua e sim devido à qualidade do seu oponente. 

Excelente posicionamento de Cuqui, embora o toiro levantasse constantemente a cara, com investidas soltas.

No segundo touro do seu lote, esteve em plano superior, sem atingir patamar de triunfo, voltando a demonstrar segurança e vontade em triunfar na sua terra. Alguns bons momentos com a muleta a destacar.

Esta foi uma lide de enorme valor. Teve diante de si um toiro com boa cara, mas sem grande transmissão. Ainda assim, Cuqui revelou todo o seu temple e a identidade moitense que carrega nos ombros. Esta atuação foi também um tributo aos 75 anos de história da praça — e uma promessa de futuro, que ele próprio ajuda a construir, tanto na escola taurina como no Clube Taurino da Moita. 

Se Ferrera foi o caos criativo, Cuqui foi o artista com causa. Mais como os The Clash. Levou à arena a identidade, onde cada lance tinha memória, e cada decisão refletia um compromisso com o futuro da Moita. Pois apresentou uma lide de respeito, identidade e construção de legado, ao estilo Clark Kent, em busca da verdade. Foi mais contido, emocional, sem “efeitos especiais” a artimanhas teatrais e a representar não só a si, mas a Moita e a história dos 75 anos da praça.

Amadores da Moita em ação

Os Forcados Amadores da Moita consumaram a pega do primeiro toiro da noite ao quarto intento, sendo João Raposo substituído a partir do segundo intento após cair inanimado. Neste primeiro toiro, Ferrera teve uma atuação curiosa: no primeiro e segundo intentos parecia querer ajudar o espetáculo… apesar de ainda não ser a sua vez. Chegou a posicionar-se como rabejador. Por momentos, parecia que íamos ver algo de absolutamente inédito, apesar desta sua “boa vontade” com os forcados já ter acontecido previamente. Por momentos até de socorrista pareceu que ia fazer, com alarido nas bancadas. 

O segundo toiro foi pegado ao primeiro intento, numa faustosa consumação do ato de pegar, que elevou os decibéis dos aficionados presentes. O que demonstra a limpeza e eficiência da pega. 

Um espetáculo com energia de cinema e sangue na arena

A corrida dos 75 anos da Daniel do Nascimento teve alma de punk rock — não apenas pela irreverência, mas pela forma como desafiou convenções com personalidade, liberdade e instinto. Houve falhas, houve risco, houve momentos de desconcerto, mas também verdade, intensidade e arte sem filtros. Um espetáculo com energia de cinema e sangue na arena.

Corrida dirigida por Tiago Tavares, assessorado por Jorge Moreira da Silva e com José Henriques no cornetim.

Nota 1:  Nas cortesias fomos brindados com um novo pasodoble, “Praça de Touros Daniel do Nascimento”. E veio em excelente altura, no culminar de 75 anos de bravura e emoção tauromáquica. 

Nota 2: Por vezes há queixas dos timings das corridas em terras lusas. Pois bem, esta corrida é um exemplo a este nível. Duas horas e meia para sete toiros (é de louvar a gestão do tempo).