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Quarta-feira, Dezembro 10, 2025

Olimpo na Nazaré: Morante, deus do trovão e do toureio, abençoou a arena

Olimpo na Nazaré: Morante, deus do trovão e do toureio, abençoou a arena do Sítio. Nesta perspetiva divina, a Nazaré voltou a ser santuário do toureio ontem, dia 19 de julho de 2025, com uma corrida que promete gravar-se na memória dos aficionados. E acrescenta-se, uma corrida esgotadíssima e “à pinha”.

Texto: André Nunes / RL
Fotografias: Nuno Almeida 

Galeria Fotográfica: AQUI.

O cartel juntou nomes de peso, mas foi a presença de Morante de la Puebla que transformou esta noite num verdadeiro momento olímpico da tauromaquia. Partilhou cartel com António Ribeiro Telles, António Ribeiro Telles Filho, Manuel Dias Gomes (a substituir Marco Pérez) e o Grupo de Forcados de Vila Franca de Xira

O eco dos deuses na arena da Nazaré

Morante, génio andaluz, é sinónimo de arte, mistério e transcendência. O seu regresso a arenas portuguesas — e, mais concretamente, à estreia na emblemática praça da Nazaré — elevou as expectativas a um patamar raro. Não se trata apenas de ver tourear: trata-se de presenciar uma epifania taurina.

Assim, a Nazaré tornou-se Olimpo, morada dos deuses do toureio. E no centro, como figura divina, surgiu Morante de la Puebla — o deus do Trovão e da tauromaquia. A sua presença foi rara, intensa, quase mística. Como quem desce do céu apenas uma vez, abençoou o público, o toiro e a própria praça com o peso da sua arte. Como um Thor tauromáquico, com muleta ao invés de um martelo.

O contraste entre o classicismo português e o barroquismo espanhol poderá ter sido o ponto alto desta noite, num duelo simbólico entre escolas e estilos — mas sempre com a arte como centro.

António Ribeiro Telles: Zeus de sela firme

António Ribeiro Telles abriu a noite, com sabedoria. Nos compridos, puxou do clássico com garra inesperada, mais veloz do que o habitual — como um Hermes montado, a conduzir o público ao rito. Uma passagem em falso não toldou o conjunto: logo se ergueu com uma bandarilha de elevação.

Seguiu com uma sorte mais frontal, com ligeira batida ao píton contrário em que abriu minuciosamente o quarteio. Logo depois, um ferro com cite frontal numa reunião cingida em que, nos tempos e nos locais certos, reuniu-se corretamente para aplauso total.  Não faltou o seu sorriso total também, capaz de levantar bancadas com emoção.

Após um ferro final após cite frontal, galopou pela praça em plena degustação do momento. Estava montado o primeiro instante artístico de um Olimpo que se ergueu bem alto no Sítio da Nazaré.

Em suma, António Telles enfrentou um touro de David Ribeiro Telles com 530Kg, ao qual demorou acoplar-se e encontrar as distâncias certas. Porém, quando o conseguiu cravou dois curtos extraordinários, o terceiro e quarto da ordem, perante aplauso do público nazareno. 

António Ribeiro Telles Filho: mensageiro do futuro

António Ribeiro Telles Filho lidou um toiro de apresentação assinalável — imponente, icónico, como os grandes oponentes da tauromaquia merecem. Com dois compridos eficazes, procurou desde cedo entender o rival.

Com curtos incisivos, desenhou a sua interpretação do combate — com naturalidade e intenção. Um momento de hesitação deu lugar a um ferro de suspense, onde o toiro investiu com tudo, e António soube responder com firmeza e calma.

O clímax chegou com um ferro de palmo memorável: soltou as rédeas, braços no ar, e no instante da reunião, ficou suspenso no tempo — um gesto que valeu pela beleza estética e pelo risco. Mais um momento olímpico.

António Telles filho desenhou uma lide vibrante e na qual teve extraordinários momentos na preparação e reunião das sortes, culminando num palmito, soltando as rédeas, num momento esteticamente belo.

Morante de la Puebla — Deus do Trovão, senhor do impossível

Na primeira actuação, o génio andaluz começou por receber o touro com verónicas. Houve passes junto às tábuas e uma estética que só ele pode invocar. Morante de La Puebla lidou um touro com 475 Kg. 

Lidou com naturales estéticos, profundos, como se cada passe trouxesse o trovão ao Sítio da Nazaré. O seu chamamento foi através da linguagem física, como um chefe tribal em transe cerimonial. O público rendeu-se. A praça estava esgotada — mas o silêncio entre passes era total, interrompidos por sonoros ‘olés’ cada vez que a muleta embebia o touro nas suas viagens, Como se todos soubessem que estavam a presenciar algo único.

Frente ao segundo touro do seu lote, foi como Heimdall, o deus que tudo vê, diante de um toiro com poder, que saiu dos curros como se fosse um dos doze trabalhos de Hércules.

Infelizmente, o toiro perdeu força de forma progressiva e acabou por se lesionar, sendo recolhido. Em gesto de respeito, a empresa ofereceu um sobrero ao público. E com ele, Morante revelou-se em pleno. O sobrero tinha 485 kg, e foi uma força da natureza. Chegou a partir um dos burladeros pelo poderio físico demonstrado com exaltação nas bancadas. 

Uma Porta Grande “asgardiana”

Terminou com um gesto para o toiro — lançou-lhe a montera. Ela ficou num dos pitóns. Como oferenda. Símbolo. Como desafio eterno. Num gesto “asgardiano”, com “belicidade” e beleza. 

Estético, placeado, seguro e com suavidade em todos os momentos. No capote, um quite por chicuelinas com profundidade, na muleta, belíssima série por naturais e outra por derechazos, rematadas com passes de peito. Morante fez da arena um espaço interior, onde cada passe era descida à alma do toiro, percebendo a sua alma tal como Hades.

Na Nazaré, enfrentou o seu leão dos 12 trabalhos míticos— e não o matou. Domou-o, dançou com ele, e ofereceu-o ao Olimpo em forma de arte.

Acabou por sair em ombros e glória, pela “asgardiana” Porta Grande. 

Manuel Dias Gomes — Aquiles, o herói clássico

Assinou uma verdadeira masterclass no toureio a pé, diante do seu primeiro touro. Com entrega total, domínio técnico e estética sólida, esteve à altura do ambiente de culto que se vivia na praça. A sua faena teve início harmonioso, com o toiro a humilhar, e a sua quadrilha esteve irrepreensível nos pares de bandarilhas. 

O público pediu volta ao ganadeiro, pela nobreza do oponente e pela forma como Dias Gomes soube entendê-lo e o oponente o seu labor. Corajoso, firme, com temple: como Aquiles diante da batalha, respondeu com toureio clássico e de verdade.  Como Apolo, ofereceu à Nazaré uma lição de equilíbrio e beleza.

Joaquim Oliveira e João Pedro Martins brindaram de montera em mão após bandarilharem o primeiro touro.

Assim, grande primeira actuação de Manuel Dias Gomes. Estético, com souplesse e a tirar o maior partido das muitas qualidades do touro, melhor na muleta do que no capote. 

Frente ao seu segundo touro, Manuel Dias Gomes apostou inicialmente na sua conceção artística baseada na profundidade e estética, porém, a pouca potabilidade do touro levou a que o matador tivesse de apostar no poder e na raça para “sacar água de um poço seco e bruto”. 

Forcados de Vila Franca com classe e eficácia

Pelo Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca de Xira, foram à cara Lucas Gonçalves e Rodrigo Andrade, ambos ao primeiro intento. O Grupo demonstrou, na Nazaré, que está num bom momento, depois de alguns triunfos alcançados nas corridas anteriores, entre as quais, a do Colete Encarnado, na sua terra natal.

Epílogo (ou quando Morante abriu as portas do Olimpo)

Se os toureiros foram heróis, os toiros que enfrentaram foram os seus Lokis — astutos, imprevisíveis, quase mitológicos. Como se de um dos doze trabalhos de Hércules se tratasse, cada lide foi uma prova. Havia algo de enigmático neles, como se tivessem sido forjados pelos próprios deuses para testar os homens.

O curro de touros da ganadaria Ribeiro Telles teve comportamentos distintos, destacando-se pela positiva o segundo touro, e o sobrero (lidado em sétimo), com os restantes a serem díspares no comportamento com destaque pela negativa pelo segundo touro do lote de Manuel Dias Gomes. Ainda assim, noite muito positiva pela ganadaria na Praça de Touros da Nazaré. 

Os dois touros de nota positiva obrigaram a que os heróis da arena se superassem. Porque sem desafio, não há epopeia.

Na Nazaré, escreveu-se sobre uma lenda

Foi a primeira grande corrida da temporada na Nazaré. E será lembrada como a noite em que a praça se tornou Olimpo. Com Morante no centro, abençoando o público, os toiros, e o próprio futuro do toureio. Mais do que o deus do Trovão, foi o deus dos toureiros e do toureio.

E como quem merece o Valhalla da tauromaquia, o paraíso pós-vida da mitologia nórdica, Morante levou atrás de si o exército da emoção, da arte e da história. A Nazaré, nesse instante, não foi apenas praça. Foi lenda. 

Morante demonstrou que esta noite não era apenas toureio: era mística. Era como se cada movimento desenhasse a memória do que é — e do que sempre foi — a beleza trágica da festa. Não toureou, revelou segredos dos deuses e desceu do Olimpo espanhol com verónicas. 

A primeira corrida de touros da Nazaré colocou a praça como Olimpo. Abençoada por Zeus, Asgard, deuses da arte e Nossa Senhora da Nazaré.

Morante foi Dionísio e Apolo num só: loucura e beleza numa dança sagrada. Decifrou a linguagem dos deuses da tauromaquia e, no meio de um cartel de grandes tradutores dessa linguagem, foi tradutor num outro patamar. 

Corrida dirigida por Ana Pimenta, assessorada pelo médico veterinário José Luís Cruz. Um evento em que o tempo deixou-nos marcas de arte, mas a corrida teve excelente ritmo.

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