Salvaterra de Magos: Corrida de touros abençoada pelos deuses e nem Bartolomeu Dias faltou, numa noite agradável.
Salvaterra de Magos: Corrida de touros abençoada pelos deuses e nem Bartolomeu Dias faltou numa noite muito agradável.
Texto: Rui Lavrador / Fotografia: André Nunes
Corrida comemorativa encheu ¾ da lotação e prestou homenagem a duas figuras maiores da tauromaquia
A Praça de Touros de Salvaterra de Magos viveu, na noite de ontem, uma jornada taurina de grande relevância cultural e simbólica, reunindo tradição, emoção e homenagem. Com cerca de três quartos fortíssimos da sua lotação preenchida, a noite foi um tributo à arte equestre e à bravura dos forcados, mas também um espelho da vitalidade que a festa brava ainda possui no coração ribatejano.
Ou seja, frente a touros da ganadaria Foro de Almeida, saíram à arena seis cavaleiros de renome — Luís Rouxinol, Ana Batista, Gilberto Filipe, João Moura Caetano, João Ribeiro Telles e Luís Rouxinol Jr. — com as pegas entregues, em solitário, ao valoroso Grupo de Forcados Amadores do Ribatejo.
Dupla celebração: 25 anos de alternativa e 120 anos de história
O momento teve especial significado por assinalar duas efemérides de peso no panorama taurino nacional: os 25 anos de alternativa da cavaleira Ana Batista e os 120 anos da fundação do Grupo de Forcados Amadores do Ribatejo. Ambos foram homenageados em praça pela equipa gestora do tauródromo local, gesto esse que mereceu o aplauso unânime do público.
Ana Batista, símbolo de elegância dentro e fora da arena, brindou os presentes com uma actuação clássica, sem artifícios, desenhada com sabedoria e gosto apurado. Embora o primeiro ferro comprido tenha resultado descaído, a restante lide foi um retrato da sua mestria e serenidade artística. Na sua terra natal, o público rendeu-se, merecidamente, à cavaleira que personificou, na arena, a graça de Sarasvati, que na mitologia hindu é a deus da sabedoria, da música, das artes e do conhecimento, sendo descrita como bela e elegante.
Emoção e diversidade nas lides
A noite foi marcada por desempenhos distintos, com cada cavaleiro a imprimir a sua marca pessoal frente a touros de comportamento diverso. O pior da noite foi o último (lidado por Rouxinol Jr.), enquanto o quinto, lidado por João Ribeiro Telles, destacou-se como o melhor exemplar do curro e mereceu volta à arena do ganadeiro.
Abriu praça o cavaleiro Luís Rouxinol, com uma actuação baseada no conhecimento e na correcção. O touro saiu com velocidade e o cavaleiro soube aguentar bem a investida, colhendo aí os primeiros aplausos da noite. Depois, partiu para uma actuação muito correcta, quer na prepação, desenho e remate das sortes. O ginete de Pegões tem uma carreira de muitíssimo mérito e talvez algumas vezes não sinta o reconhecimento que lhe considera devido. Porém, que aqui fique referido: a qualidade do seu percurso é claro como água e indiscutível. Ontem, em Salvaterra, esteve num plano muito positivo. Dois curtos muito bons, um palmito bem conseguido e um belíssimo par de bandarilhas foram o destaque.
Gilberto Filipe, cavaleiro de menos oportunidades mas grande entrega, ofereceu uma actuação crescente, encerrando com um ferro em sorte de violino e outro já sem cabeçada, gesto que cativou o público. Os cavalos aprumados e a qualidade de equitação são sempre um regalo à vista e artisticamente esteve num bom patamar.
Arte e inspiração: os momentos altos da noite
Porém, foi após o intervalo que chegaram os dois momentos mais altos da noite. João Moura Caetano entrou em cena com um toureio de alma e estética. A sua lide foi uma dança entre a elegância do fado e a energia das bulerías, demonstrando sensibilidade artística e domínio técnico. Com sortes rematadas com gosto, brega cuidada e uma presença inspirada, o cavaleiro alentejano foi, sem dúvida, um dos triunfadores da noite. É um artista com gosto requintado e quando Apolo – Deus da Inspiração – desce em si, é uma maravilha de se ver. Ontem, esteve nesse patamar.
Seguidamente, actuou João Ribeiro Telles, que esteve em modo Prometeu, que na mitologia grega é associado à rebeldia, por ter desafiado Zeus e dado o fogo aos humanos, segundo a mitologia grega. A sua lide foi mesmo fogo e muitíssimo bem complementada ao som do pasodoble ‘Forcados do Sul’. O cavaleiro coruchense promoveu uma actuação extraordinária, em que após a cravagem comprida, elevou-se na ferragem curta. Motivado, a lidar com categoria, sacando todas as qualidades do touro, pisando terrenos de compromisso e cravando qualitativamente ferros de enorme valia, cada um melhor que o outro. Culminou a sua actuação com um ferro mais ‘tremendista’ montando o ‘Ilusionista’, que resulta sempre bem perante o público, tal a intensidade com que o faz. Grande noite do ginete!
Por fim, Luís Rouxinol Jr, qual Bartolomeu Dias, dobrou o Cabo das Tormentas (posteriormente rebatizado como Cabo da Boa Esperança), frente a um touro complicado, que quis sempre desligar-se do cavaleiro e das montadas e com querença para tábuas. Contudo, o jovem cavaleiro conseguiu dar a volta à situação e efetivar uma actuação muito positiva, que não sendo triunfal, terá certamente deixado quer o cavaleiro quer o público satisfeito, tendo em conta o touro que lhe saiu em sorte.
Forcados do Ribatejo: entre a memória e o futuro
Nesse sentido, a noite foi, também, de grande significado para o Grupo de Forcados Amadores do Ribatejo, que celebrou os seus 120 anos de fundação com um conjunto de pegas de qualidade. Ricardo Regueira, André Laranjinha (que se despediu das arenas), Leandro Catrapombo, Pedro Espinheira (na sua terceira tentativa), Dário Silva e Rafael Costa foram os rostos da valentia na arena com pegas à primeira tentativa (com a excepção atrás referida de Pedro Espinheira). A presença de antigos cabos como Rui Souto Barreiros, Joaquim José Penetra, João Machacaz e Pedro Espinheira, reforçou o simbolismo do momento.
A direcção da corrida esteve a cargo de Marco Cardoso, com José Luís Cruz a assessorar e José Henriques no cornetim, contribuindo para uma noite onde tudo decorreu com elevação e sentido de festa.
Salvaterra reafirma-se como bastião da festa
Assim, a corrida de touros em Salvaterra de Magos foi mais do que um espetáculo: foi uma afirmação de identidade, tradição e respeito por uma cultura profundamente enraizada no Ribatejo. A qualidade dos artistas, o simbolismo das homenagens e a resposta do público demonstram que, quando bem organizada, a tauromaquia continua a ser um polo aglutinador de emoção e arte.
Por fim, Salvaterra brindou a festa brava com elegância, e a festa brava retribuiu com momentos belos.


