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A história dos “7 Magníficos” na Moita: seis cavaleiros e Amadores abriram o multiverso taurino

A história dos “7 Magníficos” na Moita: seis cavaleiros e Amadores abriram o multiverso taurino.

Texto: André Nunes
Fotografias: Diogo Nora

Galeria Fotográfica: AQUI.

Multiverso taurino: Uma noite de afición e de estilos distintos na Daniel do Nascimento

Numa noite com ambiente de afición e três quartos fortes, ontem a 20 de setembro de 2025, abriu-se as portas do multiverso taurino para o público entusiasta beber de vários estilos e nacionalidades, na última corrida de touros da Feira Taurina da Moita deste ano. 

Este portal para o multiverso abriu a entrada a seis cavaleiros vindos de universos distintos. Cada um trouxe consigo a sua marca, o seu estilo, a sua forma de amar a arte. Mas, quando o ferro e a coragem se encontraram com os toiros, todos se fundiram num mesmo enredo épico, como personagens de “Os Sete Magníficos”.

Western taurino: o pueblo celebra os seus heróis

Seis cavaleiros, de nome Ana Batista, Moura Caetano (em prestação triunfal), Emiliano Gamero, Andrés Romero, Leonardo Hernández e António Prates. Marcaram presença com o Grupo de Forcados Amadores da Moita, para escrever uma página de coragem e arte, cada qual com o seu papel nesta sinfonia de arena, nos 120 anos de fundação dos Amadores. Provando que, por mais diverso que seja o multiverso taurino, há sempre um ponto de encontro onde tudo converge: a coragem, a entrega e a arte pela arte.

Do outro lado do duelo após pôr do sol: touros de Conde de Murça e de Varela Crujo. Os toiros não foram reconhecidos pelo trapio (com grande exceção do primeiro de Ana Batista), mas cumpriram em apresentação geral, compondo bem a corrida. Não se mostraram com grande querença por tábuas de forma geral e de ritmo consistente, mas obrigaram os cavaleiros a encontrar soluções para os colocar em sorte. Apesar desses obstáculos, revelaram bravura suficiente para dar emoção às lides, exigindo inteligência e temple por parte dos cavaleiros e determinação aos forcados.

O Grupo foi homenageado logo ao inicio pelo presidente da Câmara Municipal da Moita, Carlos Albino, pelo presidente da Junta de Freguesia da Moita, Fabrício Pereira, e pela presidente da Entidade Regional de Turismo da Região de Lisboa, Carla Salsinha. 

Ana Batista: a guardiã veterana em noite de emoções

A sua alegria contagiante pegou nas bancadas. Um primeiro comprido deu o mote ao resto da lide, mostrando como se faz mesmo com 25 anos de alternativa. O segundo não foi alvo de aplausos, mas não quebrou a sucessão de momentos também devido à distância com que tentou aplicar.

O touro tinha bravura, mas não tinha força de vilão poderoso nas mãos. Soube dobrar o touro, citar com carisma e dirigi-lo para o que Ana Batista estrategiou, embora nem sempre com as reuniões ajustadas. Soube também evadir-se, tal pistoleira num western, de uma quase tocada na montada, para aplausos nas bancadas, no penúltimo ferro. No último esteve em alto nível e terminou da melhor forma.

A celebrar 25 anos de alternativa, chegou como guardiã veterana da sua dimensão clássica, onde o saber é lei e com o seu sorriso foi guia para o resto da corrida, dando o tom ao resto da história.

Emiliano Gamero – o “forasteiro” mexicano sempre bem recebido pela comunidade

Mal entrou chegou logo às bancadas pelas suas vestes tradicionais mexicanas, que ainda nos remetem mais para os “Os Sete Magníficos”. Qualquer gesto, o público aplaudia.

O touro que lhe calhou insistiu bastante ao início e não retirou a atenção das suas montadas, contribuindo para uma lide dinâmica e bem aplicada, até ter perdido a bravura nos ferros finais.

Nos curtos citou com piruetas, ouvindo “olés” nas bancadas. Após uma hesitação aplicou um curto com qualidade, apesar do touro ter estado mais parado nesse instante. Soube provocar o oponente, é exímio em ter o público com ele nas lides e a sua actuação agradou a quem pagou bilhete.

Terminou com um violino de nível e repentino que até atordoou o oponente. Encerrando, fez vénia ao diretor de corrida após beijar a arena. Pode-se dizer que irrompeu na Moita como se trouxesse consigo uma realidade cheia de cor e intensidade, enquanto “forasteiro” mexicano neste universo. 

Foi irreverente e demonstrou ter uma narrativa de ímpeto e jovialidade como a totalidade da sua prestação.

Andrés Romero: Rejoneador de Garra

Do rejoneo vibrante, Andrés Romero entrou na arena como se trouxesse consigo um universo feito de garra e impacto. Teve uma presença mais discreta mas não faltou garra, impacto e pronto para o confronto com o seu oponente.

Começou com um comprido que não quebrou, mas fez valer o bilhete de quem comprou por ele pelo segundo, antes de trocar a montada. Demorou a cravar o seu primeiro curto, levantando o touro a todos os setores.

Com o levantar das mãos dianteiras do cavalo, continuou já com o seu dinamismo essencial e pessoal, apesar do início. Seguiu com hesitações nos curtos, mas continuou a cumprir o desejo do público através de acrobacias taurinas e com a montada quase a dançar e a desfrutar dos ferros. 

Desta forma, terminou com um curto de encanto.

João Moura Caetano: triunfo e duelo em momentos cinematográficos

Não toureou o seu primeiro touro e ficou com o sobrero da mesma ganadaria, devido à falta de força do animal. Foi assim o quarto cavaleiro em praça. 

Herdeiro de uma linhagem nobre, representa no multiverso o universo do classicismo português, onde foi um estratega elegante, de técnica refinada, que aposta na precisão mais do que na força. E, acima de tudo, o triunfador da noite sem dúvida! Foi o xerife que ditou o tempo e o temple máximo de uma lide que só pareceu fácil, por os gatilhos da arma estarem ao comando do ginete chamado João Moura Caetano.

Entrou com a sua classe e emoção habitual, e cravou um comprido com sentimento após dobrar o touro, como se o cavalo fosse um capote. Com “revólver no bolso” sacou do segundo comprido com rapidez e eficácia.

Com o primeiro curto a saltar, logo aplicou outro templado em que o tempo do duelo parecia ter parado, com sensação e thrills. Continuou a aplicar os curtos enquanto ladeava, em momentos de reunião clássica que nos levam a tempos mais cinematográficos da nossa tauromaquia, alguns esquecidos no tempo.

Interligou os ferros com cangochas à cowboy e, com “True Grit” de John Wayne e sensação de xerife veterano, chegou às bancadas.

Leonardo Hernández: certeiro e sólido

Hernández foi presença rara em Portugal e na Moita e cumpriu com nota acima da média nesta noite de multiverso de estilos e até nacionalidades.

Após um primeiro comprido bem aplicado, demorou a cravar o segundo, mas aplicou com qualidade. Seria esta cadência e “empate” antes de aplicar os ferros a característica menos positiva do seu toureio. Note-se que o seu toiro, não tendo claramente querença por tábuas, estava bastante focado nas situações à volta da arena e não dentro dela. 

Não rompeu nas bancadas devido ao tempo que levou entre ferros, criando suspense a mais, apesar de entrar sem hesitações, com reuniões demarcadas e no compasso certo, com exceção de dois curtos. O último ferro foi aplicado após uma hesitação, mas bem conseguido e num momento e reunião de qualidade. 

António Prates: Ascensão e derrota de obstáctulos 

Prates entrou com vontade de vencer e, apesar de demorar até cravar o primeiro comprido, os seus compridos têm boa nota, arriscando. E foi no risco que ele quis ser diferente nesta noite, até pelos seus ladeares de curta distância pela noite fora e pelas batidas ao piton contrário.

Num momento que poderia ter sido trágico, mas foi assustador na mesma, as pernas dianteiras do cavalo ficaram encaixadas na córnea do touro numa batida ao piton contrário de alto risco e proximidade. Após ginete e montada ficarem suspensos sobre o touro durante dolorosos segundos, António Prates decidiu saltar definitivamente por cima do oponente por não o conseguir retirar de outra forma.

O cavaleiro caiu após a sua destreza, mas levantou-se de imediato e olhou nos olhos do inimigo sem medos.

O mais jovem da noite, representou o universo do futuro, em expansão e promessa. Foi visivelmente movido pela ambição de conquistar o seu espaço e pela esperança de uma nova geração.

Forcados Amadores da Moita elevam-se em mais corrida de sucesso

Quanto aos Amadores da Moita, todos citaram com classe e nostalgia, mandando nas pegas, pela mais de centena de anos de história que se entrelaça com a própria tauromaquia. 

Na primeira pega esteve à cara João Pombinho, que com um grande cite, tanto de voz como de movimentos, concretizou ao segundo intento, tendo Bruno Damas como primeiro ajuda, que também deu volta merecidamente. Seguiu-se Tiago Silva, que à segunda tentativa consumou a pega, depois de três chamadas cheias de raça em que demonstrou mais bravura que o próprio touro, ao enganchar-se corporal e lateralmente na córnea. 

Carlos Domingues foi o forcado da cara na terceira pega, brindando ao pároco e consumando ao primeiro intento. Na quarta pega, o forcado da cara foi Rui Pragana, num grande momento coletivo. Já na quinta pega foi Fábio Silva quem esteve à cara, consumando ao primeiro intento aquela que foi a última pega da sua carreira – e que grande que foi. Por fim, João César fechou a noite como forcado da cara da sexta pega, também ao primeiro intento.

Os Forcados Amadores da Moita, com os seus 120 anos de história, não são apenas o pueblo protegido — eles são também parte dos Magníficos, porque entram na arena, enfrentam o touro de peito aberto, e escrevem com o corpo a sua valentia. Às 22h de dia 20 de setembro, em rostos, gerações e gestos de coragem, e nesta noite este grupo subiu a fasquia com velhas glórias e futuros promissores. 

A lenda continua ao pôr do sol

Assim, cada lide foi como um capítulo de western, cada pega uma cena de coragem, e a praça Daniel do Nascimento o palco perfeito onde estes “Sete Magníficos” se encontraram para escrever mais uma página da história da Daniel do Nascimento. 

Todos os cavaleiros e forcados terminaram com volta, como “gunslingers” que regressam ao pueblo ou town após vencerem o inimigo e defenderem as comunidades. Defenderam também uma noite que podia ser mais uma, mas não o foi, pela diversidade e entusiasmo com que montaram e superaram os obstáculos.

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