João Pedro Ávila: O homem, o forcado e o cabo, teve ontem dia importante, na mudança de cabo do grupo da Tertúlia Tauromáquica Terceirense
O legado de João Pedro Ávila
Neste domingo, 22 de junho, na emblemática Praça de Touros da Ilha Terceira, viveu-se um momento de grande emoção. João Pedro Ávila despediu-se da função de cabo dos Forcados Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense, encerrando um ciclo que ficará para sempre marcado na história do grupo — e na alma de quem com ele partilhou trincheiras e amizades.
Mais do que um cabo, João Pedro Ávila foi sempre reconhecido como um verdadeiro líder. Discreto, cortês e profundamente humano, fez da humildade e da empatia os pilares do seu comando. Não precisou de voz elevada, nem de gestos grandiosos. Bastou-lhe o exemplo. E esse foi, invariavelmente, sentido por todos.
Ao longo dos anos em que liderou o grupo, soube unir diferentes gerações de forcados com um espírito de camaradagem ímpar. O que se viu em praça, sempre, foi um grupo coeso, respeitador da arte, da tradição e, sobretudo, dos valores da tauromaquia. Comportamento irrepreensível, postura íntegra e uma entrega sem reservas — marcas que nunca se apagaram da imagem dos Amadores da Tertúlia sob o seu comando.
João Pedro Ávila comandou pelo exemplo
João Pedro Ávila foi, acima de tudo, um cabo que soube escutar, compreender e motivar. Fez de cada pega um momento de comunhão e responsabilidade partilhada. E sempre que havia conquistas — ou dificuldades — dividiu-as com o grupo, como verdadeiro timoneiro que é.
Ontem, ao despedir-se da função de cabo, João Pedro não se despede do afeto de quem o admira. A sua forma de estar — reservada mas firme, humilde mas inspiradora — deixa um legado maior do que qualquer troféu: o respeito unânime do mundo taurino.
A sua presença continuará a ser sentida em cada forcado que ajudou a formar, em cada lição de coragem que deixou, e em cada gesto silencioso que, mais do que palavras, disse tudo sobre quem é.
Porque há homens que não precisam de se exibir para serem grandes. João Pedro Ávila foi — e é — um desses.
A última entrevista antes da despedida na arena
Horas antes de se despedir das arenas, João Pedro Ávila concedeu-nos uma entrevista – realizada por Paulo Gil – e falou sobre este momento marcante.
“Sem dúvida que foi uma longa viagem, que passei por várias etapas, naturalmente começando muito cedo. Fui aprendendo muito com os mais antigos, no sentido de ver a sua forma de pegar, e buscando um bocadinho de cada um, e ganhando também eu a minha personalidade, juntando as minhas características e formando aquilo que eu mais aprecio num focado. E fui tentando, com o tempo e com as oportunidades que me foram dadas, impor aquilo que era o meu estilo“, disse.
“Passei no próprio grupo um bocadinho por tudo. Nós temos aqui o grupo juvenil, também tive o privilégio de ser cabo do grupo juvenil. Depois, na chegada, no meu percurso no grupo sénior, fui tendo vários momentos, uns realmente muito marcantes, outros menos bons“, acrescentou.
João Pedro Ávila fala em viagem “muito intensa, foi muito especial e, com todos esses anos, já há muitas histórias”
“Mas fomos tentando ir aprendendo e, lá está, tentando impor sempre aquilo que era a minha forma de ver e sentir a focadagem, principalmente o nosso grupo. Até que neste ciclo final, acabei por ter a oportunidade de ser cabo do grupo. Foi uma viagem que realmente não foi de muito tempo, mas foi muito intensa, foi muito especial e, com todos esses anos, já há muitas histórias, mas o que fica, acima de tudo, é camaradagem e é um dia como hoje, ter antigos que nós já não estamos juntos há muito tempo e é aproveitar o dia e é para isso que cá estamos hoje“, disse sobre os 26 anos ligados ao grupo, sendo cabo desde 2018.
Seguidamente, falou sobre o melhor momento e o pior momento da carreira de forcado.
“Com o tempo, eu nunca criei muitos objetivos para mim como forcado. Sempre fui tentando servir do grupo e estar disponível para ajudar o grupo naquilo que fosse preciso. Claro que tive a oportunidade de pegar em muitas praças, fazer várias pegas, ajudar também“, explicou.
“Também foi uma etapa que passei no grupo, mas eu não consigo distinguir o melhor e o pior. Todos foram parte de uma aprendizagem, todos foram marcantes, tanto os bons como os maus, e a vida seguiu e nós fomos andando sempre até que achei por bom nessa fase e senti que era o melhor para o grupo fechar o ciclo porque nós temos agora realmente uma juventude a aparecer e não fazia sentido ser eu a abrir esse ciclo para depois não finalizá-lo na totalidade“, destacou.
“Acho que faz todo o sentido de ser um novo cabo, um novo elemento, jovem, com dinâmica, porque o grupo também está a precisar disso e o grupo continuar a seguir e a melhorar porque as nossas passagens no grupo têm que ser vistas sempre dessa forma, é fazer o nosso melhor, mas deixá-lo sempre muito melhor do que aquilo que quando nós entrámos e tem sido esse o objetivo“, considerou.
“Não olho no sentido de ser a minha despedida”
“O alto e o baixo é chegar ao fim e continuar a tentar fazer o melhor para o grupo“, reforçou.
Sobre este dia da despedida, “eu não consigo transmitir que tipo de sentimento porque este dia foi porque tinha que o ser. Mas acima de tudo eu nunca o idealizei e nunca vejo este dia como a minha despedida“.
“Eu sempre tenho uma missão que me foi entregue e a confiança dada pelos elementos do grupo por ser o cabo e a minha missão parte também para entregar o grupo. Eu não olho no sentido de ser a minha despedida, olho sempre por uma missão que eu tenho que completar que é sim passar ao próximo cabo. É assim que eu encaro este dia, é assim que eu sinto, que eu vejo e por isso não tenho qualquer tipo de sentimento porque não é o meu dia, é o dia do grupo e esse aí é que é importante“, disse.
E se o filho quiser ser forcado?
O sogro foi cabo do grupo, João Pedro também o foi. Nesse sentido foi questionado se o filho, António, também decidir ser forcado.
“Pois, isso será da responsabilidade dele. Eu como pai irei sempre transmitir-lhe ou mostrar aquilo que eu gosto e ele com o tempo e voando na sua personalidade, no seu crescimento é que se vai identificar com aquilo que entender-se. Se quiser ser forcado muito bem, se não quiser as coisas são assim mesmo“, disse.
Por fim, rematou: “Para mim hoje trata-se de uma missão e a missão é entregar o grupo por isso eu não penso em mais nada, não sei como é que será amanhã. Provavelmente acredito que estarei feliz, mas vamos ver. Ainda falta a corrida que é o mais importante, por isso até lá tudo tranquilo“.
O marco da encerrona para o grupo!
Não sem antes falar da encerrona do grupo, ontem, na praça da Ilha Terceira.
“É sempre um marco que eu acho que todos os grupos deveriam fazer no mínimo uma vez por ano, porque é assim que conseguimos ver a postura de um grupo, é assim que vemos as características a forma de estar em praça de um grupo é com seis toros. Ainda ontem tivemos uma experiência que eu pessoalmente não gosto que é ter que pegar dois touros, pegar o primeiro e o quarto toro é nós estarmos desligados na ficha, desligar e voltar a ligar não gosto, acho que faz todo o sentido é estarmos sempre prontos para pegar os touros, sempre preparados para pegar e ontem acabou de pesar um bocadinho esse misto“
Texto: Rui Lavrador / Fotografias e Entrevista: Paulo Gil


