Marcos Bastinhas triunfa e Sónia Matias homenageada no fim de uma era da praça João Branco Núncio, em Alcácer do Sal, na tarde de 22 de junho de 2025. Numa data especial por diversos motivos, entre os quais a homenagem pela Câmara Municipal de Alcácer do Sal a Sónia Matias, pelos seus 25 anos de alternativa. Uma cavaleira próxima dos aficionados de Alcácer e que, após as cortesias, recebeu a sua homenagem em forma de lembranças das mãos do presidente da Câmara Municipal, Vítor Proença, e do empresário da Tertúlia óbvia, José Luís Zambujeira.
O Fim de Uma Era: última corrida na Praça Centenária
E, até à data de escrita, e com o que se sentiu, será a última corrida que esta praça recebeu, pois irá ser reconfigurada para uma Arena Multiusos que também receberá tauromaquia. Mas seria o fim de uma era da sua estética e ambiente como observámos durante todos estes anos, desde a sua construção em 1922.
Mesmo que os deuses da arte lá costurem os tecidos da existência para uma corrida extra, a verdade é que o sentimento era de fim de uma era. E, como sempre, a assistência nesta praça não falhou, e conseguiu três quartos de casa composta, com uma atmosfera intensa e de celebração. E, por “ser uma corrida diferente, também a crónica/crítica o será”.

Ambiente de Festa: Entre Palmas, Gritos e Emoção
Nesta tarde, os artistas a cavalo foram Luís Rouxinol, Sónia Matias, Marcos Bastinhas, Duarte Pinto, o rejoneador mexicano Emiliano Gamero e Francisco Núncio, face a touros da ganadaria Herdeiros Varela Crujo. Também em praça estiveram os Grupos de Forcados Amadores de Montemor e de Cascais, que disputaram o prémio para a Melhor Pega, entregue pela União das Freguesias de Alcácer do Sal (Santa Maria do Castelo e Santiago) e Santa Susana.
E o público parecia que estava verdadeiramente numa Festa Brava. Bateu palmas, bateu pés, cantou, chamou, gritou. Tal e qual um festival. Diria até uma miniatura das Fiestas de San Fermín, em Pamplona. Em que parece que a tauromaquia nacional se transforma para algo muito específico e que parece ser um ambiente particular. Era a festa instalada. Uma festa de despedida, mas uma festa.
A Última Luz da Arena
A Praça de Toiros João Branco Núncio é um lugar de memória e hoje contou com uma atmosfera de despedida digna, melancólica e orgulhosa. A velhinha praça foi uma personagem em si, um protagonista em si e um artista em si: envelhecida, mas viva até ao fim.
Era a última vez. A última tarde. O último ferro cravado na carne do tempo.
Em Alcácer do Sal, o rio Sado corre sempre pela artéria principal da cidade. E desde 1922, também as memórias taurinas de gerações correm pelos intermédios do mítico espaço. Foi o fim de um ciclo, de um tempo, de uma maneira de viver. A Praça João Branco Núncio é uma caixa de ressonância da nossa memória coletiva. Ecoam as vozes do nosso passado e os passos daqueles que nos ensinaram a amar o toiro. E foram tantas as lendas que por ali passaram, que seria impossível contá-las todas sem falhar a justiça que merecem.
Luís Rouxinol: símbolo de entrega contínua à Festa
Luís Rouxinol é um cavaleiro muito acarinhado pelo público alcacerense e este domingo não foi diferente.
Após uma fase de compridos regulares, o cavaleiro de Pegões subiu – e muito – o nível na fase dos curtos.
Nesse sentido, como destaque maior o último curto, numa sorte frontal e em que aguentou bem a investida do touro, com reunião ajustada e emocionante e ainda um par de bandarilhas com que fechou a sua actuação, perante a euforia do público, e também do próprio cavaleiro.
Sónia Matias: a ousadia com alma feminina
Sónia Marias dedicou a lide ao presidente da autarquia. Porém, a fase dos compridos foi irregular, tendo algumas passagens em falso. Contudo, o público acarinhou muito a cavaleira e Sónia Matias soube dar a volta ao texto, com destaque para os ferros em sorte de violino que fizeram o público delirar, quase deitando a praça abaixo de tantos aplausos e gritos de alegria. Matias ficou mais vibrante e o seu carisma natural notou-se mais.
Resta dizer apenas que as pessoas que estiveram na praça assistiram a um dos momentos mais bonitos da João Branco Núncio. Na volta de agradecimentos, a filha de Sónia Matias entrou para a arena e deu a volta com ela após um abraço próximo e que emocionou ainda mais a cavaleira. Um momento que não nos esqueceremos tão depressa.
Marcos Bastinhas: Energia Pura em lide triunfal
O cavaleiro tem em si uma aura especial, seja na forma como o seu carisma deixa o público em polvorosa, seja por alguns detalhes mais estéticos – ontem por exemplo ao aguardar a saída do touro, dava voltas com a bandarilha sobre a sua mão, qual samurai ou cavaleiro medieval. E este cavaleiro da idade contemporânea é cinematográfico de forma consistente.
Quanto à lide, Bastinhas esteve em plano muito elevado – triunfal – aproveitando as boas características do touro. Dois ferros curtos cravados cingidíssimos foram o mote para a apoteose total do público alcacerense ao cavaleiro. Porém, faltava a assinatura da casa, com Marcos a cravar o par de bandarilhas e aí sim a deixar o público totalmente entregue à sua lide e em completo delírio.
Se Branco Núncio era o “Califa” de Alcácer, Marcos foi ontem o “Imperador”, por ter tido uma lide imperatória de assistir e pelo estilo cinematograficamente imperial.
Duarte Pinto com profundidade artística e nobreza
Duarte Pinto iniciou a sua atuação ao dedicar a lide ao presidente da União das Freguesias de Alcácer do Sal, Arlindo José Passos.
Lidou um touro com alguma malicia e que cortava caminho, destacando-se também pela pelagem distinta. Começando com um primeiro comprido sóbrio, com discrição e classicismo, voltou a apresentar-se da melhor maneira a uma afición que já o conhece em Alcácer. Já nos curtos, apesar de alguma hesitação e pacing, cravou bem, reforçando a sua imagem de toureiro clássico e de classe.
Não atingindo plano de triunfo, mas estando correcto, pese algumas hesitações durante a sua actuação.
Emiliano Gamero: Garra latina e dos “vaqueros” mexicanos
Gamero levou o seu tempo no primeiro comprido, ainda asssim mais adaptado ao estilo clássico de tourear português, do que anteriormente, apesar deste público ser naturalmente muito recetivo ao rejoneio. Ladeou, ladeou e voltou a ladear, levando o touro junto da sua montada.
E por entre alguns toques na montada, Gamero conseguiu dar a volta ao texto e agradar ao público de Alcácer do Sal, destacando-se com um ferro em sorte de violino.
O público rendeu-se e pediu mais, mas sem sucesso. Os aplausos foram estrondosos, a um rejoneador que é falado por entre os alcacerenses sempre que se começa a falar de quem irá à corrida, com bastante ânimo.
Por isso, também foi ovacionado como um dos heróis da tarde.
Francisco Núncio: a juventude como continuidade de um legado
Iniciou com dois compridos bem cravados, seguros e decididos, com ligeiro toque na montada entre eles o que poderia levar a uma quebra de ritmo, não fosse o jovem cavaleiro a continuar a sua sequência com técnica.
Nos curtos, notou-se uma hesitação inicial numa sorte frontal em que tentou envolver o toiro sem êxito, mas rapidamente recuperou. A partir daí, cravou com eficácia e sentido de oportunidade, contribuindo de forma clara para que esta tarde se pintasse de “ouro sobre azul”, como se impunha.
Um jovem de critério, foi estudioso e ponderado nas cravagens, com alguns tempos inativos. Contudo, mostrou-se sempre ligado ao toiro, com noção e cálculo dos terrenos.
Montemor e Cascais: bravura de forcadagem em Alcácer do Sal
Na exigente tarde de pegas deste domingo em Alcácer, estiveram em destaque, pelos Amadores de Montemor, José Maria Marques (consumando à segunda tentativa), Bernardo Batista (autor da pega mais destacada da corrida, também concretizada à segunda) e Vasco Carolino (que concretizou à segunda tentativa).
Já pelos Amadores de Cascais, Diogo Silva consumou a pega na sua segunda tentativa, após três investidas iniciais de Rafael Abraços. Aqui há diversas coisas a apontar: palmas do público para três forcados que se colocaram em cima para o proteger após insistência do touro em investir sempre sobre o forcado caído, e a sua maneira bem-humorada e carismática de chamar o touro com alegria, provocação e “ó lindo tá tudo bem?”.
Seguiram-se Carlos Dias, que pegou à terceira, e o cabo Afonso Tomaz da Cruz, que concretizou uma pega de resistência à segunda tentativa.
No final, foi entregue o Troféu da Melhor Pega, uma distinção da União das Freguesias de Alcácer do Sal (Santa Maria do Castelo e Santiago) e Santa Susana, ali representada pelo seu presidente, Arlindo José Passos, figura da terra e ligado ao mundo autárquico desde os anos 80. O vencedor? Bernardo Batista dos Amadores de Montemor, correspondendo à segunda pega do grupo e terceira da tarde.
A tauromaquia não acaba em Alcácer do Sal
O que terminou ontem foi uma era — uma maneira de ver, de viver e de sentir a Festa nesta praça tal como ela foi durante décadas. A Praça João Branco Núncio vai para obras. Haverá outra configuração, outro tempo, talvez outro público. Mas o que aqui se viveu, com este formato e esta alma, não se repete.
Esta corrida foi, por isso, mais do que um espetáculo — foi uma despedida emocional de uma arquitetura e de um espírito. Uma última tarde nesta casa antiga onde cada pedra, cada sombra e cada silêncio conhecia já os passos dos toureiros, o som das palmas, a emoção da investida.
O futuro da praça será certamente digno. Mas ontem não acabou ali matéria. Acabou uma era.
Os alcacerenses, como os aficionados de todo o país, vivem estes dias com uma ansiedade silenciosa, mas convicta: a praça muda, sim, mas a alma fica.
Serão certamente outros os tempos e novas as formas — mas novas lendas nascerão, e novos nomes quererão erguer-se no mesmo chão onde já brilharam Núncio, Bastinhas ou Salvador. A Praça João Branco Núncio haverá de continuar a ser um ponto de encontro nacional, não apenas tauromáquico, mas cultural e identitário.
“Como Núncio, no hay nadie!” — dizia Manolete, e disse tudo. Como esta praça, também não. E como Alcácer também não.
É um até já Praça de Toiros João Branco Núncio. E um até já Arena Multiusos. Ficamos à vossa espera.



